23.4.09

Mesmo assim insisto

"Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardarei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto - meus gestos e palavras são magrinhos como eu, e tão morenos que, esboçados à sombra, mal se destacam do escuro, quase imperceptível me movo, meus passos são inaudíveis feito pisasse sempre sobre tapetes, impressentida, mãos tão leves que uma carícia minha, se porventura a fizesse, seria mais branda que a brisa da tardezinha. Mas desde que, há duas semanas, uma cigana desvendou as fracas linhas das palmas de minha mão, pouco sossego encontro até em meu próprio sossego: dois amores, ela apontou, um já passado, e com amargura localizei na memória aquele sôfrego Estudante, e outro em breve por chegar. Desde então, me desconheço. Abreviaram-se-me as idas ao banheiro para molhar os pulsos e os lóbulos das orelhas, animando a circulação que se me estanca nas veias, por vezes olvido a torneira aberta e surpreendo-me a odiar minhas próprias tranças, as manchas roxas sob os olhos e tudo que me torna assim, fugaz. Mal posso conter um susto investigando o porte de cada homem que se aproxima, em cada esquina que dobro, em cada ônibus que tomo para ir e vir, sinto que busco prometido e me detesto por essa inquietação febril, pelo amor que desconheço e mal consigo supor, tão parca é minha vida de memórias ou medidas. Esforço-me por dar-lhe pinceladas tênues, não me atrevo aos óleos nem aos acrílicos, é nos guaches e sobretudo nas aquarelas que procuro o verde esmaecido de sua tez, mas por vezes alguma coisa se alvoroça e me surpreendo alucinada, incontrolável, a chafurdar em tintas fortes, berrantes cores primárias, formas toscas, símbolos sensuais, e é então que mergulho em banhos gelados no meio da noite para apaziguar a carne incompreensível, fremente qual Teresa d’Ávila, afogada entre lençóis, as palavras da cigana me embalando feito uma berceuse, imagino se não será o próprio Senhor este que se aproxima, e não conheço. Em cada junho, sei que não suportarei o próximo agosto, me debato elaborando aquela futura tarde gris para encontrá-lo - não aqui, entre torpezas, mas numa outra dimensão de luz maior, além de meu próprio corpo, irmão-burro aprisionado pelos instintos, num espaço discreto e contido como eu mesma venho sendo através destas quase três décadas que, álgida, sobrepujei. Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis, imagino sempre que sou invisível para cada um dos que passam. Ninguém suspeita de meu segredo, caminho severa pelas calçadas, olhos baixos para que minha sede não transpareça: ah sou tão morena e magrinha que ninguém me adivinha assim como tenho andado - castamente cinzelada no topo deste morro onde os ventos não cessam jamais de uivar, tendo entre as mãos, como quem segura lírios maduros dos campos, uma espera tão reluzente que já é certeza."

Caio Fernando Abreu

19.4.09

tempo, tempo, tempo...

Pois é... O sábio maior. E o Corinthians está na final do Paulistão. e eu? eu vou muito bem, obrigada.

11.4.09

Pintadinha de Fulô

Patativa do Assaré
Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.
Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô Filisberto de Carvaio.
No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.
Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.
Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.
Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.
Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.
Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.
Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva Pintadinha de fulô.
Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.
Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

Antônio Gonçalves da Silva (Assaré CE, 1909 - idem 2002). Freqüentou a escola por apenas quatro meses, em 1921, mas desde então vem "lidando com as letras", como ele mesmo afirmou. Agricultor, em 1922 já atuava como versejador em festas, e a partir de 1925, quando comprou uma viola, deu início à atividade de compositor, cantor e improvisador. Em 1926 teve um poema publicado no Correio do Ceará, mas seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, seria lançado trinta anos depois, em 1956. Em 1978 publicou o livro Cante Lá que Eu Canto Cá, e em 1979 iniciou, com Poemas e Canções, a gravação de uma série de discos, entre os quais se destacam Canto Nordestino (1989) e 88 Anos de Poesia (1997). Seu último livro, Cordéis-Patativa do Assaré , é de 1999. A poesia de Patativa, que verseja em redondilhas e decassílabos, traduz uma visão de mundo "cabocla", muitas vezes nostálgica e desapontada com as mudanças trazidas pela modernidade e pela vida urbana. Sua obra aborda os valores e os ideais dos camponeses do interior do Ceará, em poemas que tematizam da reforma agrária ao cotidiano dos sertanejos cearenses.



7.4.09

keep Me

Keep me Protect me and Share Me
Belíssimo comercial da Kodak
About People!


Narasimha


(...) concentra nos deuses RS

auspiciosos RS


mas eu sinto rasgando, da uma pinicada

nossa, dani

nunca tinha visto esses

é o deus leão ?

a historia dele é espetacular

tinham 2 irmãos

e os dois meditavam muito

eram super devotos aos deuses

um deles meditou tanto mas tanto que chamou a atenção de um deles

e esse deus concedeu um desejo

só que o cara era ruim

nossa

e ele desejou nunca ser ferido ou morto por nenhum animal ou homem


gente

quem é esse?

e foi feito o pedido

e ele conseguiu

ele queria ser mais poderoso que os deuses

e começou uma batalha

e tinha o filho do irmão que

era divino um ser iluminado

e estava em perigo

então o pai meditou tanto tanto que o deus veio a terra e criou um ser que

pudesse matar o cara

que não fosse nem homem e nem fera

e sim os 2 ! e criou um homem leão

olhaa que lindo

nossa, que historia linda

to resumindo né




eu sei

mas é linda, ué, inclusive pela sua narrativa

auspiciosa

calma olha tem mais a parte mais importante


conta

um segundo a Magali

ta

liguei para ele

prontoo

ai nasceu Narasimha

eu liguei pra ele hj....

o deus metade leão e homem que derrotaria o cara

e aí ??

ele foi frio :(

concentra no Narasimha

ta

conta

foi só um aparte

nem ia contar

aí esse deus dilacerou as vísceras o homem mau

porque ele não era nem homem e nem besta

era os 2

sim.... mas e ai?

essa vc já contou..............

é o leão homem!!!!!!!!!!

olha o detalhe da foto


gente que imagem linda

nossaa

o menino iluminado


já dá para ver

meu deus, pera

e sabe quem era o deus ?

vishnu !

em forma de metade leão e besta

olha

o menino dando o colar para ele

quem era o menino?

e o monstro era o próprio pai que queria destruir o filho iluminado que queria
seguir vishnu

metade homem metade fera

o menino era um ser iluminado e devoto a vishnu

são duas encarnações em uma?

vishnu tem 10 encarnações

uma delas Buda

fiquei com a história das duas encarnações na cabeça

ele sempre vem para ajudar

tendi

que foto forte Dani

tem mais detalhes

lindíssima

e forte

tipo o cara não podia ser morto nem de dia nem de noite

e foi morto no crepúsculo

pediu a Brahma que não fosse morto por qualquer criatura jamais criada, ou por qualquer criatura nascida de uma mãe, de um pai, de um ventre, de um ovo ou gerada por qualquer outra entidade viva criada, nem de dia nem de noite, que não morresse em um canto de lugar algum, nem na terra, nem na água e nem no ar, que não fosse morto por qualquer tipo e arma, que o metal jamais perfurasse sua carne, que sempre estivesse livre de doenças provocadas por microrganismos, que sempre fosse protegido de catástrofes naturais e que o seu próprio corpo e mente não fossem jamais causa da sua morte.

que louco isso

Vixnu encarnou como Narasinha (entidade viva sem forma definida, mais parecida como um leão) e jocosamente cumpriu as bênçãos proferidas por Brahma: a sua forma era inusitada e jamais havia sido criada por Brahma, ele surgiu do meio de um pilar de pedra e não foi gerado por uma mãe, pai, ventre, ovo, etc., sua morte ocorreu no crepúsculo, nem de dia e nem de noite, Vixnu o matou sobre o joelho é o tipo de “lugar nenhum,” nem na terra, nem na água e nem no ar, e a unha não é um arma de metal) e foi assim que o demônio morreu gozando de excelente saúde!

nossa !! (...)

6.4.09

a Arte do Silêncio

Sem ele(a)(s), não teríamos assistido a um dos maiores talentos que a humanidade já teve.
Só para recordar...

*A arte imita a vida ou é a vida que imita a arte?

3.4.09

Uma medida concreta

O Governo do Estado do Rio de Janeiro adotou uma medida digamos... bastante concreta para conter o crescimento das favelas da "cidade maravilhosa". R$40 milhões serão investidos para erguer muros em volta de todas as favelas do Rio. Só em torno da Rocinha serão 11 mil metros de concreto erguido. Verdadeiras muralhas. A justificativa: proteger a vegetação no entorno das comunidades. Não sei se estou muito louca, mas a obra me remeteu aos guetos onde eram isolados os judeus durante o Nazismo. Ou ainda ao muro de Berlim, que foi destruído em 1989. Pois bem, 20 anos depois o governo do Rio adota essa medida tão contemporânea e democrática. Vejo isso com, no mínimo, profundo desconforto. A segregação ganha, cada vez mais, matéria palpável. Dá para ter uma idéia da boa vontade, de iniciativa social e do papel público de um governo desses. Em tempos que assuntos como Inclusão Social e Direitos Humanos ocupam boa parte da pauta mundial, o Brasil insiste em caminhar na contramão. E para trás. Ou melhor, morro abaixo com cimento e tijolo. Inaceitável e, no entanto, já em andamento. De assustar...

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