30.11.08

Da Paixão

“Transforma-se o amador na cousa amada” e a versão contemporânea de Carlos Filipe Moisés “A paixão segundo Camões”. Para Eduardo Lourenço em Camões, Antero e Pessoa: poesia e metafísica, aquele soneto representa um poema-questão que está acima dos jogos de corte. Mergulhado em petrarquismo e platonismo, nele a ausência da amada é que alimenta o amador, de início satisfeito com o “muito imaginar” que a traria para junto de si.

Quer dizer, nas quadras, contenta-se o eu-lírico com a idealização do amor, com o amor de almas. Mas nos tercetos o recusa e torna-se aristotélico, pois “como o acidente em seu sujeito” e “como a matéria simples busca a forma”, tal como, por exemplo, a água (=matéria) toma a forma do conteúdo do pote que ela preencher, quer a satisfação do amor carnal, material, corpóreo:

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mi[m] tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assi[m] coa minh’ alma se conforma,

Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

Já o meta-soneto de Carlos Felipe Moisés retrata um amante contemporâneo, nada altivo, disperso, errando de amor em amor, sem pensar no passado, vivendo só o presente, “ausência, nada”.

Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude e sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma

As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
se no amor de um mar sem espuma.

Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando se encontrar na coisa amada.

A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.

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(*)referência:
A PAIXÃO DE LER CAMÕES (A LÍRICA)
Lucia Maria Moutinho Ribeiro (UNIRIO/FSJ)


29.11.08

Da mentira

Não conseguia esquecer. O que atormentava é que não eram as tormentas que não esquecia. Não esquecia o gosto, o cheiro, os pêlos, a boca. O olhar. Mas tocava-lhe a lembrança de uma forma que atormenta: amarelada. Pensava o quanto era ridículo não esquecer. Seus pensamentos se transformaram em uma série de divagações ridículas. Sabia o quão ridículo era tudo que se passava em sua cabeça. Então, com a consciência de sua ridícula consciência, disfarçava pensamentos. Para si e para o mundo. Disfarçava com opiniões encontradas em orelhas de livros, páginas de revistas, horóscopos. Sim, seus pensamentos eram mais ridículos que horóscopos. Acostumou-se. Pensadores, filósofos, autores de romance vagabundo. Lia tudo. Para dissimular a mente esverdiada do bolor. Fartava-se do pensamento alheio para ter assunto. E de pensamento em pensamento de outro alguém, esqueceu. Esqueceu de lembrar as verdades que sentira em tempos azuis. Esqueceu do mar de declarações carmim sem palavras, do olhar morno, da boca quente, dos pêlos, do cheiro âmbar, do gosto hortelã. Na espera em um farol qualquer da rua que não sabe o nome, com tranqüilidade de mente branca, olha para o letreiro iluminado do cinema na esquina escura. “O amor ensina a mentir”. Verdade.

27.11.08

Do amor

Do desejo e da ilusão... Poesia.

26.11.08

A "lei" natural dos encontros



Notícias são boas quando dizem boas coisas. Esse foi um dos motivos de eu ter abolido a televisão da minha vida. Não a tenho em minha nova casa e já não assistia mais quando a tinha em meu quarto na casa dos meus pais. Hoje escolho o que vou saber e o que não quero ler ou ver. Uma das grandes vantagens da Internet. Mas, por esses dias recebi notícias ruins. As piores. Aquelas que vêm de quem a gente quer bem. E que às vezes não está muito bem... Um ex-namorado, por quem eu fui loucamente apaixonada há uns quatro anos, está com câncer. Uma amiga minha, há mais de 15 anos, foi despedida depois de dez anos na empresa em que trabalhava. Problema pequeno diante do drama do meu ex, mas que gera mudanças e adaptações significativas na vida de qualquer pessoa. Algo que notei e que aproxima as duas situações em alguns aspectos é que são duas pessoas com as quais resgatei o contato faz bem pouco tempo. Coincidentemente, fui trabalhar para a assessoria de imprensa da empresa na qual minha amiga trabalhou por dez anos. Isso foi há uns três meses. O meu trabalho já acabou por lá e mais que uns trocados no bolso, me trouxe de volta a amiga de faculdade que deixei de ver por tanto tempo. A surpresa de sua demissão veio por um telefonema. Marcamos um jantar e acho que será o primeiro em anos de afastamento. Meu ex me encontrou pela Internet há menos de um mês. Como daquela paixão enlouquecida e boa só guardo boas lembranças, foi muito bom revê-lo, mesmo que virtualmente. Em nosso primeiro contato, ele disse que estava bem e feliz. Mas, depois sumiu e não respondia às minhas mensagens. Até que veio a notícia da doença. Fiquei mais serena com a segurança e força com as quais ele está enfrentando isso, mas claro que foi um choque! O que eu sinto com essas duas situações é que a vida, por vezes, traz de volta as pessoas para perto da gente. E muitas dessas vezes na hora em que mais precisam ou precisamos. Confiar nessa “lei” natural dos encontros é como ter um passe garantido na viagem que fazemos por esta existência. É como um bônus com o qual sempre poderemos contar. Acredito que posso somar no momento dessas duas pessoas queridas. Por isso estão de volta em um período tão delicado. Quando achamos que se fecharam todas as portas é porque já havíamos passado por elas. Outras se abrem a nossa frente. Sei que minha amiga encontrará outro emprego e será mais feliz, já que vivia para o trabalho há dez anos. Decepções como esta só nos mostram que a vida é mais que dinheiro no bolso e compromissos profissionais, já passei por isso e realmente o capitalismo te descarta facilmente e sem dó. Sei também que meu ex vai ficar bem e curar-se. Parece absurdo pensar isso diante de uma doença tão grave, mas sei que é possível. Quando passamos por momentos em que nadamos em um mar de dúvidas, acredito que essas certezas - vindas de amigos, parentes e pessoas queridas – são essenciais para atravessarmos as águas. Isso, nós fazemos sozinhos. As dúvidas geram mudanças e desafios imprescindíveis. Mas, a certeza que vêm do outro na nossa vitória é também força imprescindível para a nossa superação sobre esses obstáculos. Certeza de que não estamos sós. Certeza essa, que eu tenho agora.

23.11.08

Balanço


"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho…o de mais nada fazer.”

Sábias palavras. E não são minhas.

21.11.08

O amor permanece

Uma das coisas mais lindas que eu já ouvi!


13.11.08

cada palmo do corpo

"Homem é azagaia. Ponta de lança. Homem é uma linha recta sem fim. Homem é uma bala ferindo o espaço na conquista do mundo. As rectas unem o céu e o chão até ao fim do horizonte. Deixa que o homem seja o fim, porque tu és o princípio. Mulher é linha curva. Curvos são os movimentos do sol e da lua. Curvo e o movimento da colher de pau na panela de barro. Curva é a posição de repouso, já reparaste que todos os animais se curvam ao dormir? Nós, mulheres, somos um rio de curvas superficiais e profundas em cada palmo do corpo. As curvas mexem as coisas em círculo. Homem e mulher se unem numa só curva no serpentear dos caminhos... As curvas encerram todos os segredos do mundo..."

texto da moçambicana Paulina Chiziane

desenho por C.O.R.

8.11.08

A ópera e minha vida



Alguém escuta ópera no prédio da frente. E eu também. A música tem um tom de tristeza, mas também uma energia, uma força, surpreendentes. Há momentos em que a ouço bem baixinha, são os de suavidade. Intensidade em todos esses momentos. Eu devia cantar ópera, ou lutar boxe. Uma das duas coisas para extravasar esse vulcão que trago dentro de mim. Acabo sendo tão desastrada com a vida que as portas se fecham. Aí eu entro em paranóia que tenho que abrir tudo na porrada. E é então que cria-se o círculo que leva a novos desastres. Uma vez eu disse a uma pessoa que ela era desastrada, emocionalmente desastrada. Bom... descobri que a desastrada sou eu. Será? Já não sei, não sei mais o que me incomoda, o que eu gosto, o que eu quero, o que eu sinto, o que eu penso, o que eu vejo. Percebo apenas, levemente, que algo delicado em mim se quebrou. E foram tantos os remendos, tanta cola, cuspe, atadura, reposição de pecinhas que se esmigalharam que o que era delicado se transformou. Essa mesma pessoa, aquela desastrada, dizia-me que eu tinha ternura no olhar. Isso não achei desastre não, mas... será? Quando olho em meus olhos pelo espelho vejo tristeza e desesperança. Vejo mágoas que não consigo dissolver nem em lágrimas. vejo cansaço e tento ver aquele delicado lá que ficou pra trás. Será que isso é crescer? É perder o encanto? Ele vai casar. Aquela pessoa. Eu finjo que não ligo, sabe?! Na verdade eu não ligo, às vezes sim. Ligo quando sinto que a vida continua tão fácil para algumas pessoas, enquanto para mim é como a ópera. Longa, pungente, duradoura, sofrida ou suave, mas sempre de uma intensidade de quebrar copos. Que desastrada que sou.

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