Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector
"Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara-se o mais ininteligível dos seres onde circulava sangue. Ela e o mar. Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões" pág 91
"Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio da madrugada. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem. Vai entrando. A água salgadíssima é de um frio que lhe arrepia e agride em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seu mais adormecido sono secular. E agora está alerta, mesmo sem pensar, como um pescador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entando a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido secreto. O caminho lento aumenta sua coragem secreta - e de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda! O sal, o iodo, tudo líquido deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada." Pág. 92
9.8.07
Ela, o mar e a madrugada
5.8.07
Que o Deus Venha
Interpretação de Cazuza para trecho do livro Água Viva de Clarice Lispector.
Gravação raríssima de 1987 no Morro da Urca, RJ.
Com participação de Ângela Ro Ro.
2.8.07
Memória das Águas
“Sidarta, porém, reembarcou na balsa.Ao regressar à cabana, recordava o pai, recordava o filho, escarnecido pelo rio, lutando com o próprio eu, à beira do desespero e, apesar disso, propenso a soltar gargalhadas, mofando de si mesmo e do mundo inteiro. Ai dele! A ferida ainda não se transformara em flor. O coração continuara a rebelar-se contra a sua alma. O seu sofrimento ainda não chegara a irradiar serenidade e triunfo. (...) Suavemente ressoava o canto de inúmeras vozes do rio. Sidarta olhava as águas e na corrente surgiam imagens (...) cada qual tinha os olhos fixos na sua meta; cada qual sofria. O rio cantava com voz plangente. Cantava saudades. Angustiado, dirigia-se à sua foz, e sua voz era melancólica. (...) Sidarta esforçou-se por aguçar os ouvidos. A imagem do pai, a sua própria e a do filho, todas elas se confundiam. Entremesclavam-se, tornavam-se rio e como tal fluíam em direção à meta, ávida, ansiosa, tristemente. E a voz do rio ressoava cheia de saudade, cheia de doloroso pesar, cheia de insaciável desejo. O rio rumava em direção à sua foz. Sidarta percebia a pressa daquela corrente formada por ele mesmo, pelos seus, por todos os homens que já se lhe havia deparado. Todas essas ondas e águas, carregadas de sofrimentos, precipitavam-se em busca de suas metas, que eram muitas, as cataratas, o lago, o estreito, o mar e, uma a uma, as metas eram alcançadas, mas a cada qual seguia outra; da água formava-se a bruma, que subia ao céu, transformava-se em chuva, a cair das alturas, virava fonte, virava regato, virava rio e novamente iniciava a sua jornada, novamente fluía rumo à meta. Mas a voz sôfrega acabava de mudar. Ainda ressoava plangente, inquiridora, porém se misturava com outras vozes, alegres e aflitas, boas e más, risonhas e entristecidas, centenas de vozes, milhares de vozes. (...) Quantas vezes não ouvira todos aqueles rumores, a multiplicidade das vozes que vinham do rio, mas naquele dia lhe pareciam novas. Já não era capaz de identificá-las.Não conseguia distinguir as vozes jubilosas das choronas, as infantis da másculas. Todas elas formavam uma só, a lamentação da nostalgia, a risada do ceticismo, o grito da cólera e o estertor da agonia. Tudo era uma e a mesma coisa. Tudo se entretecia, enredava-se, emaranhava-se mil vezes. E todo aquele conjunto, acima das vozes, a totalidade das metas, das ânsias, dos sofrimentos, das delícias todo o Bem e o Mal, esse conjunto era o mundo. Esse conjunto era o rio dos destinos, era a música da vida. Mas, quando ele escutava atentamente o que cantava o rio, com seu coro de mil vozes, quando se abstinha de destilar dele o sofrimento ou o riso, quando cessara de ligar a alma a determinada voz e de penetrar nela com o seu espírito, quando, pelo contrário, ouvia todas elas, a soma, a unidade, acontecia que a cantiga das milhares de vozes se resumia em uma só palavra, que era OM, a perfeição. (...) Sua ferida desabrochava como uma flor. Sua mágoa fulgia. Seu eu incorporava-se na unidade. Foi nessa hora que Sidarta cessou de lutar contra o seu destino. Cessou de sofrer. No seu rosto florescia aquela serenidade do saber, à qual não se opunha nenhuma vontade que conhece a perfeição, que está de acordo com o rio dos acontecimentos e o curso da vida, a serenidade que torna suas as penas e as ditas de todos, entregue à corrente, pertencente à unidade.”
Trecho de "Sidarta", de Hermann Hesse
