Wednesday, July 15, 2009

Sem querer

Uma pessoa saiu de minha vida. Sem querer. Saiu da vida de muita gente aqui neste mundo. E ela não quis. Tão pouco a gente. Mas, mesmo em outro nível de existência, ela ainda existe aqui também. Em corações, em lembranças, em nossos sorrisos, nas nossas conversas, em sonhos e risadas. A dela é tão viva e presente que ainda escuto. Eu queria ter escrito algo sobre ela aqui antes. Mas me faltavam palavras diante do impacto dessa "perda" para todos que a conhecem. Linda, jovem, inteligente e sorridente Erika. Ou simplesmente Keka. Simplesmente. Keka deixa saudade mas deixa também presença. Então, vivamente brinca em meus pensamentos e lembranças e de tão viva me pego rindo com sua risada ou admirada diante de sua graciosidade ao dançar. Erika dança lindamente. A imensa "perda" que foi Erika, me fez pensar em tantas outras pessoas que tinham a eternidade em minha vida e não estão mais. Outro tipo de morte, sabe? Por escolha. E o tempo não espera, nem a vida. O tipo de morte que falo, por querer, vai arrancando do nosso coração as lembranças, as risadas, as danças, as conversas... Porque você sabe que a pessoa ainda está, mas ela não quer ser. Não em sua vida. Numa espécie de proteção natural, você apaga da vida esse alguém, por mais que esse alguém ainda viva em algum lugar deste mundo.

- As pessoas se perdem com muita facilidade neste mundo.

Keka não está, mas sempre vai SER. Numa existência que ultrapassa a real ilusão que é a matéria.

Monday, July 06, 2009

little better

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de

cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar,

de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará,

porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo.

Caio Fernando Abreu

Quem tem identidade


"Quem tem identidade não precisa de raiz". Essa frase faz parte de uma letra de música que eu e minha amiga Patrícia escrevemos em uma das muitas noites insones quando morávamos no mesmo prédio. A Paty entrava umas três horas da manhã em casa, que sempre estava aberta, ia pro meu quarto e nem sempre eu estava acordada. E, quando assim, acordava sorrindo pela presença dessa divertida e querida amiga. Foram momentos de criação de desenhos de tatuagens, poemas, risadas e conversas madrugada adentro. É nesse período que acredito ter estruturado minha identidade. Identidade não está só dentro da gente e os amigos ajudam a descobri-la e mais, formá-la. Raiz todos temos e muitas, como o cordão umbilical, precisam ser cortadas. Raiz também se apresenta de modo mais sutil. Quem nunca ouviu falar em cordão de prata, vale procurar saber sobre o assunto. A partir daí rola uma coisa mais de crença. Independente do nome, acredito que energias também unem as pessoas. Ter identidade é saber o que o outro está pensando pelo seu olhar. É ter em um amigo ou amiga o espelho ou o reverso para se entender. É reconhecer também as singularidades de cada um, reconhecer as separações no caminho não como perda, mas apenas que os caminhos tornaram-se diferentes. E aceitar com gratidão pelo tempo compartilhado. E deixar ir. Ter identidade é carregar no coração todas as emoções vividas, boas ou ruins, como aprendizados imprescindíveis para ser o que se é. Ter identidade é saber o que se é sem perder a possibilidade do novo. Ter identidade é reconhecer que se é mais que um nome, além de um rosto e - apesar de possíveis incompreensões e julgamentos - amar-se pelo ser. Isso é mais que ter raiz. Raiz alimenta, identidade liberta. Cuidar das raízes só é possível quando se tem identidade. Pois é quando reconhecemos onde está plantado nosso jardim. E meu jardim se encheu novamente de flores e as árvores de frutos neste fim de semana! Com o retorno de amigos antigos e a conquista de novos amigos. Ontem, voltando para casa, a lua apareceu gigante na frente do meu carro. Lembrei da Paty, que está na Bahia, e liguei para mandar toda a "vibe" boa que senti! Bom ter amigos, bom ter amores, bom ter família. Ter identidade faz reconhecer que a raiz foi a semente que escolhemos plantar e permite o vôo livre para novos plantios. E que venham mais bons frutos!

Friday, July 03, 2009

Perfeito!

Talento em todos os formatos e genialidades! Estava faltando algo sobre o Michael aqui...
E ninguém melhor que Fred Astaire para esta homenagem. Idéia e edição perfeitas!


Tuesday, June 23, 2009

A lenda da Águia

Os Ombros Suportam o Mundo | Sangrando



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Thursday, June 11, 2009

Cores

Tudo o que toco me tinge
Indesejadas e desejadas cores
E delas todas me visto
Misturo como convém
Algumas me chegam prontas
Algumas me deixam louca
Mas tudo que me toca tinge
Penetra a pele e entra
Me move de alguma maneira
Não é preciso temê-las

Expor-se é estar-se vivo
Estar-se visto

Me assustam os descoloridos


*Música "Tinge", de Giana Viscardi

Friday, June 05, 2009

Poesia e desabafo

Sabe, às vezes eu tenho imensa vontade de fazer alguns desabafos daqueles bem robustos aqui no blog. Mas, quando penso o carinho com o qual cuido deste espaço, percebo que eles não cabem aqui. Como já foi dito uma vez, este é um espaço para a poesia. Conchas, estrelas, grãos de areia brilhantes em dia de sol. Meus ou de outros que ainda me fazem, simplesmente, acreditar. É por esse motivo que eu selecionei os vídeos abaixo para este post. O poeta que era um sol em si. E que sabia fazer dos seus desabafos as mais brilhantes poesias - com a exata maestria para tanto.

Os bons vão cedo, mas ficam eternamente dentro de nós.


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Monday, June 01, 2009

mais que 1000 palavras



Fui a uma bienal - não lembro o ano - que trazia instalações e obras de Louise Bourgeois. Fiquei impressionada como elas falavam - algumas aos gritos, outras em sussurros e outras, ainda, em silêncios. Entre as obras da artista estava a gigantesca aranha que fica desde então no MAM, lá no Ibirapuera. Mas havia uma instalação que nunca mais vi, embora volte latente neste momento à minha lembrança. Louise pendurou roupas suas em diversos cabides - camisolas, vestidos, peças íntimas - em uma espécie de "despir-se". Lembro que havia algo de entrega e de abandono de porções que não lhe cabiam mais. Desfazer-se, com carinho e respeito, de parte da bagagem. Lembro ter sentido cheiro de morte naquela obra da artista. Mas hoje penso nela com mais leveza ... Descrever em palavras tal impressão é algo tão impossível e pretensioso que termino aqui este texto. As imagens falam por si. É isso.



Ilustração de Fabio Moon e imagem da instalação de Louise Bourgeois